Webnário debate assédio moral e suicídio na categoria bancária 
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Webnário debate assédio moral e suicídio na categoria bancária

De acordo com especialistas, adoecimento mental é presente na categoria e precisa ser discutido

A Federação dos Trabalhadores do Ramo Financeiro de Mina Gerais (Fetrafi-MG) promoveu nesta terça-feira (28), “Suicídio e assédio moral: precisamos falar sobre isso”. A atividade reuniu dirigentes e lideranças sindicais nacionais e especialistas da área da psicologia e debateu questões relacionadas ao Setembro Amarelo (mês da prevenção ao suicídio) e o assédio moral na categoria bancária.

A presidenta da Fetrafi-MG, Magaly Fagundes, abriu o webnário parabenizando o Coletivo Nacional de Saúde pela iniciativa do debate. Ela lembrou que muitas vezes não vemos o sofrimento de pessoas do nosso próprio convívio. E defendeu que sejam traçadas estratégias e formas para ajudar os indivíduos em sofrimento.

Para a secretária de Saúde da Fetrafi-MG, Helyany Gomes Oliveira, o adoecimento mental é um tema que precisa ser discutido. “A depressão é uma doença muito silenciosa e o suicídio é um ato extremo. O adoecimento no ambiente bancário é muito sério”.

A professora do Departamento de psicologia Clínica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Dra Ana Feijó, proferiu a primeira palestra da noite. Segundo ela, o suicídio não é um fenômeno moderno na história da humanidade. “Enquanto na Grécia antiga, o suicídio estava ligado à dignidade e à honra, hoje o que está em questão é o trabalho. É uma exigência de produtividade que não damos conta. Vivemos em um mundo tecnológico e o ser humano é tomado como uma máquina e, assim como ela, é descartado quando não tem mais utilidade”.

Ela afirmou que o problema está em como as relações sociais se estabelecem e alertou que “embarcar na ideia neoliberal de que o indivíduo é livre e responsável por suas ações é um risco já que retira do poder público a sua responsabilidade”. E completou “É impossível haver tanto doente mental como se diz hoje. O percentual que se atribui à doença mental retira do poder público a responsabilidade e coloca toda ela no individual. É muito mais fácil diagnosticar e medicar do que abraçar e compartilhar a dor”.

A especialista apresentou uma pesquisa sobre suicídios no Japão. Durante a pandemia os suicídios diminuíram. O número de suicídios entre março e outubro de 2020 foi menor do que o número de mortos pela Covid-19, ao longo do mesmo período. Segundo ela, a baixa se deve, presumivelmente, ao maior contato familiar.

“A melhor estratégia de prevenção ao suicídio é o amor, é olhar para o outro e dar acolhimento. O homem moderno sempre está acelerado e apressado. Não tem tempo para ver a lágrima que escorre dos olhos da pessoa que está a seu lado. Quem pensa em terminar com a sua vida precisa de acolhida, abraço e prevenção”.

Suicídio na Categoria Bancária

Mauro Salles, representante do Coletivo Nacional de Saúde da Contraf-CUT, apresentou um painel sobre o Suicídio na Categoria Bancária. Segundo o dirigente, o tema sempre foi tratado como tabu, mas é um problema grave e preocupante na categoria. “Vivemos um momento de alto risco que nos preocupa. O trabalho é uma questão central das nossas relações. Essas reestruturações, ou melhor, desestruturações, provocam muito medo e insegurança”.

Para ele, o método de gestão adotado pelas instituições financeiras são potenciais detonadores dessas tragédias. “O nível de sofrimento e adoecimento psíquico aumentou muito nos últimos anos. A pressão por resultados, o medo de demissão e muitas práticas administrativas são responsáveis pelo aumento desse sofrimento”.

Ele citou uma pesquisa da Universidade de Brasília (UnB), que aponta que, entre 1996 e 2005, a cada vinte dias um bancário colocou fim à própria vida. Para ele, o ambiente de trabalho dos bancários com metas abusivas, avaliação de desempenho, medo da demissão (utilizado como ferramenta gerencial) é uma fábrica de depressão. “O assédio moral alimenta essa engrenagem enquanto os ansiolíticos e os antidepressivos se transformam em ferramentas de trabalho”.

Mauro afirma que os sindicatos devem se constituir em mecanismos de defesa para prevenir e dar uma luz aos colegas que estão em dificuldade. “Quem trabalha com saúde nos sindicatos sabe que essa atuação salva vidas. Precisamos aprender como lidar com casos de suicídio que é muito complexo”.

A vice-presidenta do Sintraf-JF, Lívia Terra, deu um testemunho emocionante sobre um processo de depressão que ela enfrentou nos últimos anos. “Quem adoece se recolhe. Achamos que não nos cabe incomodar as pessoas ao nosso redor do nosso sofrimento. Quem está sofrendo nem sempre consegue pedir socorro. Muitas as vezes o sofrimento está do nosso lado e ninguém vê. Muitas vezes não conseguimos ter empatia entre nós. Antes de passar pelo que passei não conseguia compreender como é”. Lívia ressaltou que durante todo o tratamento o apoio da família e dos colegas do Sintraf-JF e da Fetrafi-MG foi fundamental para o seu processo de recuperação.

Assédio Moral no Ambiente de Trabalho

 A diretora de Saúde do SEEB BH, Luciana Duarte, ressaltou que o assédio moral é responsável por várias patologias. Segundo a dirigente, a arma dos banqueiros para que o trabalhador produza mais é o assédio moral.

A secretária de Saúde do Sintraf-JF, Taiomara de Paula, afirmou que o tema de suicídio nesse momento é muito importante e disse que a categoria bancária vive a realidade do assédio de perto.

A psicóloga do Sintraf-JF, Taciara Scarton, apresentou a palestra Assédio Moral no Ambiente de Trabalho. Segundo ela, quando pensamos na questão do suicídio no ambiente de trabalho, precisamos falar do assédio moral. Segundo a psicóloga, a prática de assédio moral interfere na autoestima e tomada de decisões das trabalhadoras e dos trabalhadores trazendo danos à dignidade e integridade psíquica ou física do indivíduo. “Essa ideia de desvalorização da pessoa e do trabalho que ela exerce vai minando a autoestima”.

Ela explicou que algumas características do ambiente bancário tornam propicias as práticas de assédio, como o tratamento hostil, a exigência de um perfil, a resistência ao engajamento sindical, o cumprimento de metas e até políticas institucionais de competição entre as bancárias e os bancários.

A especialista definiu duas formas de assédio moral: o interpessoal (exercido por indivíduos) e o institucional (é incentivado e tolerado pela própria organização). Ações como: retirar a autonomia da trabalhadora e do trabalhador; sobrecarregar com novas tarefas e retirar de cargos e funções; ignorar a presença; gritar ou falar de forma desrespeitosa sistematicamente; espalhar boatos ofensivos; não levar em conta os problemas de saúde para distribuir funções; criticar a vida particular; criar apelidos depreciativos; impor punições vexatórias e ameaçar demissões e transferências estão entre as práticas que configuram o assédio moral.

A psicóloga alerta que situações isoladas podem causar dano moral, mas não configuram, necessariamente, assédio moral. Taciara afirma ainda que a prevenção é o melhor caminho para combater o assédio no ambiente de trabalho e elencou algumas ações preventivas: “buscar conhecimento e ficar atento às atitudes; dar visibilidade e procurar ajuda de colegas; evitar conversar sem testemunha com o agressor; exigir por escrito explicações do agressor; procurar o sindicato e relatar e denunciar – diretores sindicais devem ter conhecimento para auxiliar”.

Fonte: Fetrafi-MG